Silicone industrial – perigo!

Durante os últimos seis meses, a cada três dias, uma travesti deu entrada no único ambulatório do País especializado no atendimento deste público, exibindo as cruéis marcas causadas pela aplicação do silicone industrial. A prática, clandestina, também está se disseminando entre mulheres.

Usada para turbinar os seios e nádegas com baixíssimo custo, o procedimento vem vitimando pacientes por todo Brasil com reações alérgicas, deformações severas no corpo e dificuldades para andar, além de mortes por infecção generalizada.

A diferença entre o silicone industrial e as próteses tradicionais é o produto utilizado e também a forma de aplicação. Enquanto as cirurgias plásticas normais são realizadas em clínicas aprovadas pela vigilância sanitária com custo mínimo de R$ 2 mil (apenas a prótese), a aplicação irregular é feita por pessoas sem o menor conhecimento de medicina, chamadas de “bombadeiras”, em unidades “fundo de quintal”. O material utilizado nestes casos são os silicones líquidos, R$ 20 o vidro, fabricados inicialmente para limpar carros por exemplo. São injetados por uma seringa em condições precárias de higiene.

Na ausência de estatísticas oficiais sobre as sequelas do silicone industrial – injetado na face, nas nádegas e nos seios – os casos que chegam aos consultórios públicos e privados evidenciam o alto preço da vaidade pago ou por quem, a qualquer custo, quer formas femininas ou por mulheres que insistem em seguir padrões estéticos irreais.

De agosto a janeiro, só no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo, foram 73 pacientes acolhidos na tentativa de tratar os males do silicone industrial.

Espelho cruel

Os casos que chegam assiduamente ao Ambulatório para Travestis de São Paulo servem de cenário das consequências. A psicóloga da unidade, Judit Lia Busanello, conta que a maior parte exibe pés e pernas deformadas, já que o silicone ilegal aplicado nas nádegas desce para os membros inferiores. Existem também os casos de silicones aplicados nos seios que descem para a barriga, deixando evidências que não podem ser disfarçadas.

Os danos físicos são devastadores, com muita dor, mas o impacto psicológico não pode ser descartado. São pacientes que vão atrás do sonho da beleza e vivem um pesadelo.

Os cirurgiões plásticos afirmam que nem sempre é possível reverter os danos causados pelo silicone industrial, já que as cavidades no corpo necessárias para a retirada do produto químico podem ser fatais.

Os casos de aplicação noticiados pela mídia de 2005 para cá – em São Paulo, na Bahia, em Minas e no Rio Grande do Sul – em sua maioria retratam mortes instantâneas de pacientes, já que o silicone também pode entrar na corrente sanguínea e provocar septicemia (infecção generalizada).

Padrão estético

A perigosa onda do silicone industrial surgiu em consequência da moda das próteses, que caiu no gosto dos brasileiros. Segundo o último relatório da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC), o número de cirurgias estéticas das mamas ultrapassou a quantidade de lipoaspirações realizadas no País, até então a recordistas de procedimentos.

De um total de 629 mil cirurgias plásticas feitas em 2008, 151 mil foram de mama e outros 91 mil de lipo. Quatro anos antes, as lipoaspirações somavam 198.137 e as cirurgias de mama 117.759. Na época em que o estudo foi divulgado pela Sociedade, médicos afirmaram que um dos possíveis motivos para as alterações na preferência é a mudança do padrão estético, mais “americanizado”, com seios bem fartos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *